Estranho Crucifixo – por Padre Adilson

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Um gesto registrado em foto e estampado na mídia mundial marcou a semana passada, além de outros eventos pelo mundo afora. Trata-se do crucifixo que o presidente boliviano ofertou ao papa Francisco, em visita aquele país. Sem dúvida, foi uma oferta estranha para muitos. Houve, também, muita especulação a respeito. Arrisco, também, fazer a minha. Talvez não coincida com a do (a) amigo (a) leitor (a). Não importa, escrevo, aqui, neste espaço jornalístico, com o único intuito de fazer refletir. Para isso, também, sou professor de Filosofia. Ninguém é dono da verdade. Cada um é livre de concordar ou discordar. É necessário, porém, ter argumentação plausível.

Bem, mas voltemos ao gesto do presidente Evo Morales. Primeiramente, tenho que lembrar que o ser humano é um ser simbólico. Isto é, só consegue se comunicar por meio de símbolos, por ele mesmo construídos ou inventados. Estes são carregados de sentido, significação de maneira que possibilitem e facilitem a comunicação entre os seres humanos. É evidente que precisam ser aceitos e reunidos, em uma convenção, de modo que formam um verdadeiro “código”, inserido na Cultura da Nação. Por isso, a Cultura de um povo é, justamente, o conjunto de seus símbolos. A Cultura humana é essencialmente simbólica. Aliás, em última análise, só o ser humano cria e inventa símbolos. Fundados nesta premissa, muitos antropólogos culturais chegam a afirmar que o ser humano inicia sua vida verdadeiramente humana, no dia em que criou e inventou o primeiro símbolo.

Tudo isso escrevi para dizer que atrás dos símbolos, portanto, de uma Cultura está um “modo” de pensar e de agir. Em outras palavras, uma ideologia. Um estilo de vida. Com reflexos na vida pessoal, mas, sobretudo, na vida sociocultural. Por isso, o presidente Morales, creio que tentou passar a ideia ao papa e ao mundo, que sua administração da Nação Boliviana, está fazendo a síntese entre Cristianismo e a ideologia socialista comunista. A Cruz seria a representação simbólica da proposta da Boa Nova do Reino de Deus, trazida por Jesus de Nazaré da parte do Pai, animada pela presença permanente do Espírito Santo. A Foice e o Martelo a representação simbólica da proposta da ideologia socialista marxista. Seria fusão? Simbiose? Sobreposição? Anulação da Cruz já que o símbolo da Foice e Martelo, a meu ver, sobressaiu. Pareceu-me mais destacado.

Seria possível esta façanha? É possível, na prática, este casamento entre a Boa Nova do Evangelho e a ideologia marxista? Como conciliar ou fundir a proposta de “metanóia” que quer dizer conversão, mudança radical de vida da escravidão do pecado (pessoal e social) para a vida da liberdade dos filhos de Deus. Portanto, inclui necessariamente o amor, diálogo, perdão, fraternidade, solidariedade, justiça sem a perda da própria individualidade. Já a ideologia socialista marxista, por definição, é luta, combate, não para mudança de vida pessoal com efeito comunitário, mas luta de mudança, apenas, na estrutura econômica (infraestrutura), para mudar as supraestruturas (Filosofia, Direito, Estado, Ética, Religião…). Não há espaço para o diálogo (trata-se de eliminar o “outro”), o amor (luta de classe impede), o perdão (não há reconciliação possível entre classes sociais), a liberdade (o “individual” tem que ceder espaço para o “social”)…

P. Adilson José Colombi scj, prof. de Filosofia – peadilson@uol.com.br